Simplicidade e cidadania, as chaves para o futuro

por Cleber Ricci Anderson - guia "Bike na Rua"


     Pensar simples. Pensar nas consequências de nossos atos e sua repercussão no futuro.

     Para reproduzirmos nosso futuro catastrófico já, basta nos trancarmos por alguns minutos numa garagem com nosso carro ligado. No dia a dia atual de uma cidade grande, resumimos os efeitos da poluição nas irritações de vista, na secura da garganta, numa dor de cabeça e em muitas pessoas que sofrem e não saem de um hospital ou de perto de um inalador, para continuar simplesmente respirando.

     Na Cidade do México, a mais poluída do mundo, as autoridades aconselham que as famílias com crianças pequenas mudem-se dali. Você gostaria de mudar-se depois de tanto sacrifício para encontrar um canto só seu?

     Pedalar é muito antigo e mesmo com toda a tecnologia, gastos e devastações provocados pela indústria automobilística e do consumo, ainda não inventaram um veículo mais eficiente, mais racional, mais econômico, mais rápido, mais prático e menos poluidor para o transporte urbano do que uma simples bicicleta.

     No Brasil, até os anos 50, a população pedalava muito e o ciclismo era um dos esportes mais populares, até que chegou o vírus do "american way of life" provocando a "fissura" de se ter um bólido cada vez mais sofisticado. A cabeça ficou doente pelo consumo e o corpo cada vez mais sedentário. Até para ir à padaria, e comprar um jornal, tem que ser de carro.

     Derrubar casas, destruir praças, florestas, e tudo o que estiver pelo caminho, gastando muito, muito dinheiro na construção de um túnel, de um viaduto, ou sei lá o quê, para que mais carros possam circular. Andar num carro do ano, equipado com ar condicionado, filtragem do ar externo para a respiração humana, controle de umidade, computador de bordo com as melhores dicas do trânsito, e de brinde, uma máscara antipoluição com a cor da moda no porta-luvas, enfim, tudo de mais "moderno" para "andar" a uma velocidade média de 4 km/h. REALIDADE: esta será a média horária nas marginais da cidade de São Paulo no ano de 2004 (estatística Dersa), ou seja, daqui a apenas 2 anos.

     Isto seria celebrar o absurdo de manter o automóvel no primeiro lugar do pódium de status, como o objeto número um de consumo de uma sociedade que também consome muito remédio e planos de "saúde" em função disto.

     O aumento do uso da bicicleta como meio de transporte individual nas cidades do mundo inteiro é perceptível e inevitável. Cidades da Índia, China e Japão já sentiram este colapso há mais tempo, e por vantagens relacionadas ao espaço, à economia e ao ganho de tempo e saúde passaram a pedalar e a sorrir. Em países do primeiro mundo, a bicicleta é integrada ao espaço urbano e é utilizada por todas as classes sociais e faixas etárias. O uso da bicicleta no transporte sempre foi incentivado nestes países, e como o resultado é benéfico para a população, ela apóia e respeita o trânsito e o espaço do ciclista. As empresas facilitam o acesso de seus clientes e funcionários que pedalam, para que possam chegar mais dispostos e sadios. Ciclofaixas e ciclovias cortam as cidades, e obras de infra-estrutura, como bicicletários em estações de trem e ônibus são comuns em todas as cidades.

     No Brasil, tudo cede lugar e se rende aos automóveis, incluindo grande parte do orçamento familiar. Desta forma, o caos urbano é inevitável. Sair nas ruas de carro é cada vez mais sacrificante e dispendioso.

     O guia mostrará que pedalar pela cidade é viável. Sua correta divulgação são hoje muito mais necessários do que ciclovias, por dois motivos:

  • para chegarmos até uma, precisamos saber como e qual deve ser a melhor forma de atravessar os bairros;
  • para termos ciclovias que, se construídas segundo critérios minuciosamente pensados (por ciclistas), serão altamente úteis e super benvindas; mas se não formarmos uma população que pedala e atua em prol da construção destas ciclovias, nada acontecerá.

         Por enquanto, deixe seu carro em casa, e saia de bike na rua descobrindo sua cidade que, sem perceber, você esquecerá o dia a dia em cima das sedentárias quatro rodas.

         Observemos uma multidão de pedestres transitando por uma calçada estreita de uma cidade grande. O instinto de se resvalar do ser humano dá a segurança necessária para que os pedestres andem muito próximos uns dos outros sem que nenhum acidente aconteça.

         Essa segurança é garantida porque a diferença de velocidade e a distância entre eles são pequenas e porque, próximos uns dos outros, possam perceber com maior facilidade as intenções de cada um. Existem de vez em quando alguns encontrões, porque alguém com pressa no meio da multidão resolveu correr ou não respeitar leis de ética de cidadania.

         Para muitos, pedalar por uma cidade brasileira é uma loucura. Principalmente quando pensamos numa cidade como São Paulo, onde vivo pedalando. O desconhecimento e a ignorância ciclística da população, e a vontade de querer passar por cima do outro parecem ser as principais causas de acidentes que envolvem os ciclistas em nosso país.

         Pedalo como muita gente desde os quatro anos de idade e como ciclista de competição desde os doze, e sempre fiquei indignado com o desconhecimento do esporte ciclismo e com a não utilização da bicicleta como meio de transporte. Por causa do esporte, acabei estudando Educação Física na Universidade de São Paulo e por causa da vida, tive que largar este curso no terceiro ano.

         No final de um curso devemos defender uma tese. Como não sei se continuarei meu curso, por enquanto, do que eu estudei na Universidade de São Paulo e nas Faculdades da vida, do trânsito, do esporte, e do dia a dia, esta é a minha tese: o Guia Bike na Rua.

       humanismo, proximidade, diálogo, …

                     todos dentro da lei;

                                   a pequena diferença entre as velocidades dos que transitam;

                                                 a boa comunicação entre eles;

                                                               a vontade de querer a paz no trânsito;

         Estes são os pontos fundamentais para que um ciclista possa largar o seu carro em casa, ocupar menos espaço nas ruas e deixar um lugar a mais no transporte coletivo, economizar, ficar mais saudável, chegar com pontualidade e geralmente antes e com melhor humor do que um motorista com o mais caro, possante, espaçoso e poluente automóvel da face do nosso resistente planeta.